3 pilares que sustentam a confiança

A confiança é uma questão de tempo. Quem nunca ouviu esta frase, pelo menos uma vez na vida? No entanto, será que realmente apenas o tempo nos leva a confiar? Neste artigo vou identificar os 3 pilares que sustentam a confiança.

A confiança é um elemento essencial para que nos relacionemos com os outros.

Dia após dia, observo o quanto isso se reflete, na prática, com as pessoas e equipas com quem trabalho. No seio de uma equipa, a confiança tem (mesmo) um papel decisivo.

Com confiança há mais inovação, colaboração e pensamento crítico. Por outro lado, quando se sentem ameaçadas as pessoas focam-se mais em proteger-se do que em ajudar o grupo a atingir os seus objetivos. Nestas situações a energia do grupo é, simplesmente, mal direcionada!

Vamos imaginar que a confiança é como uma conta bancária. Se formos fazendo mais depósitos do que pagamentos o saldo da conta vai aumentando. Tal como a confiança (em nós e nos outros) esse valor não está sempre exatamente igual. Em determinadas alturas fazemos um depósito que reforça a conta e, em outros momentos, precisamos de gastar uma parcela do dinheiro. No entanto, o saldo mantém-se positivo se tenho mais movimentos de entrada do que de saída.

É também assim a confiança: precisa de ser reforçada com base nas nossas ações diárias!

Antes de continuarmos é importante definirmos o que é a confiança?

Confiança é escolher tornar algo, importante para nós, vulnerável às ações de outra pessoa. (Charles Feltman) Ou seja, confiança é a intenção de aceitar a vulnerabilidade com base em expectativas positivas em relação ao outro.

Aqui, reside um dos principais problemas no estabelecimento de uma relação de confiança – a forma como percecionamos a palavra vulnerabilidade. Para muitos de nós vulnerável é sinónimo de fraco e de menos capaz. Na realidade, nenhuma conexão acontece sem que exista um espaço de vulnerabilidade. Trabalhamos em equipa porque, sozinhos, não somos capazes de ter os mesmos resultados. Trabalhamos em equipa porque, invariavelmente, necessitamos de ajuda. A questão é que para que nos mostremos vulneráveis necessitamos de percecionar o outro como amigável.

Quando isto acontece o cérebro liberta oxitocina, sempre que ele está presente. A oxitocina é a hormona relacionada com a generosidade, o afeto e com o comportamento materno. A secreção de oxitocina estimula os sistemas neuronais que identificam o outro como amigo e isso diminui a sensação de ameaça, associando-se a um sentimento de confiança.

Então, o que nos faz percecionar o outro como amigável e não como uma ameaça?

Muitas vezes associamos a confiança ao tempo, mas também acreditamos que é construída por intermédio de grandes gestos e em grandes momentos!

Brené Brown, professora e investigadora do Departamento de Serviço Social da Universidade de Houston, traz-nos uma abordagem diferente. Segundo ela, a confiança constrói-se nos pequenos momentos e é mantida na simplicidade.

A confiança resulta de escolhas. Cada um dos nossos comportamentos do dia a dia tem o poder de aumentar ou de diminuir a sensação de confiança que o outro tem em nós.

Da mesma forma que a oxitocina envia sinais químicos para ajudar na confiança, vínculo, empatia e construção de relacionamentos, há algo que pode atrapalhar o seu funcionamento – o cortisol – produzido pelo stress em momentos de tensão.

O que nos faz construir e manter a confiança?

OS 3 PILARES QUE SUSTENTAM A CONFIANÇA

Em termos práticos a confiança constrói-se e mantém-se com base em 3 pilares essenciais:

1 – CORAGEM: Para enfrentarmos a nossa vulnerabilidade e a dos outros e nos permitirmos confiar.

Os recentes avanços no estudo da neuroendocronologia vêm trazer algumas conclusões importantes sobre o trabalho em equipa. Mostram-nos, por exemplo, que as pessoas têm tendência a confiar mais em quem tem uma confiança recíproca. Portanto, uma das formas de obtermos a confiança do outro é mostrarmos, precisamente, que confiamos nele e pedirmos a sua ajuda já que isso produz oxitocina que, por sua vez, gera uma sensação de conforto e de afinidade. Pedir ajuda é eficaz porque explora o impulso humano natural de cooperação.

2- COMUNICAÇÃO: Para nos expressarmos de forma clara, integra, empática e assertiva.

Tantas e tantas as vezes oiço as chefias com quem trabalho expressarem a sua dificuldade em lidar com as expectativas que depositam nos seus colaboradores. Algo do género: “Carla, a minha colaboradora não está a corresponder às minhas expectativas, trabalha sozinha e não partilha informação ou pede ajuda. Por outro lado, quando lhe dou indicações sobre uma tarefa nova parece reagir de forma negativa e, algumas vezes, acaba por não a executar.”

Este é um exemplo de uma situação que gera desconforto e que provoca falta de confiança. Algo no comportamento do outro me deixa desconfortável, provocando incerteza. A incerteza leva ao stress que, por sua vez, inibe a libertação de oxitocina e prejudica o trabalho em equipa.

A abertura, por intermédio de uma comunicação clara é, realmente, o antídoto. Uma das formas de lidar com a situação é ter uma conversa com a colaboradora para perceber a razão pela qual não pede ajuda. É importante termos presente que, muitas vezes, as pessoas não pedem ajuda porque consideram que não o podem fazer ou que esse comportamento as torna menos capazes e vulneráveis aos olhos da sua chefia. Por outro lado, colaboradores com pouca experiência podem sentir-se inseguros com tarefas novas, nem sempre sendo capazes de o verbalizar. No fundo, o medo de falhar bloqueia-os. Não se querem, simplesmente, mostrar vulneráveis. Se procurarmos comunicar com eles de forma clara, mostrando que o nosso objetivo é apoiá-los e que esperamos um comportamento consistente, temos uma grande probabilidade de aumentar o seu nível de auto confiança e de confiança em nós.

No fundo, partilhar informações de forma transparente potencia o envolvimento e o compromisso.

3 – CONSISTÊNCIA: Para sermos fiáveis nos nossos comportamentos e “fazermos (realmente) o que dizemos que vamos fazer!” Não apenas uma vez, mas sempre!

A confiança é reforçada nos pequenos gestos do dia a dia, portanto, manter a consistência é essencial. Do ponto de vista da liderança, por exemplo, os líderes consistentes são aqueles que lideram pelo exemplo e que procuram cumprir com a sua palavra quando se comprometem com algo perante a equipa.

Vou dar-vos um exemplo para aplicarmos os 3 pilares:

Provavelmente, já todos sentimos em algum momento da nossa vida (tanto do ponto de vista pessoal como profissional) que alguém defraldou as nossas expectativas. Vamos imaginar que, hoje, é um dia muito especial para mim e que uma das pessoas mais importantes da minha vida não me telefona, nem está presente de nenhuma forma. Geralmente, não estamos à espera que isso aconteça. É um momento importante e eu gostaria de me ter sentido apoiada. Tenho algumas formas de lidar com esta situação:

– A primeira é ficar magoada e continuar a relacionar-me mantendo, contudo, uma postura distante e sem nunca abordar o assunto. Claro que isto acabará por gerar uma sensação de desconforto e um ambiente negativo que não ajudará, de nenhuma forma, a que a minha mágoa diminua. A minha intenção pode ser, simplesmente, não me expor por considerar que irei ficar vulnerável aos olhos do outro – “Será que vai achar que estou a ser demasiado sensível ou exagerada? Porque razão tenho de lhe dizer que estou magoada? Afinal, isso não deveria ser óbvio?”

– A segunda opção é assumir a melhor intenção por parte do outro. Assumir que, eventualmente, algo pode ter acontecido e que existirá uma justificação válida para a sua ausência. Isto significa que, ainda que a pessoa tenha defraldado as minhas expectativas, não o terá certamente feito com a intenção de me magoar. Da próxima vez que estiver com ela direi algo do género: “Ontem, era um dia muito importante para mim, tu não me ligaste ou estiveste presente. Isso fez-me sentir triste e desconfortável. Eu gostaria que tu me tivesses apoiado. Compreendo que tenha existido algum imprevisto. Esta situação afeta a minha confiança em ti.”

Nesta segunda opção, estou a demonstrar o meu espaço de vulnerabilidade, a comunicar para expressar o que sinto e a mostrar aquilo que eu espero que a pessoa faça daqui para a frente. No fundo, o que lhe estou a pedir é que seja consistente e estou a fornecer-lhe indicações claras nesse sentido.

Assim, a confiança não acontece como que por magia só porque passou tempo. A confiança reside mais na coragem do que no tempo, reside nas pequenas atitudes e escolhas que fazemos todos os dias!

Queres saber mais sobre a confiança? Escuta o episódio 2 do Podcast Mind Speeches dedicado ao tema da anatomia da confiança.

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