Quando foi a última vez que te divertiste? Diversão e disciplina parecem ser palavras incompatíveis, mas não são. A diversão pode e deve fazer parte de um modo de vida intencional! Neste artigo vou mostrar-te como a diversão te pode ajudar a gerir a distração.
O mundo sempre esteve cheio de distrações. Hoje, a maioria de nós culpa os smartphones ou, mais especificamente, as redes sociais pelo facto de tendermos a procrastinar e a estarmos distraídos. No entanto, esses não são os verdadeiros culpados.
Como escrevi no artigo “Como aumentar a Inteligência Emocional para gerir a Procrastinação?” a procrastinação é estimulada por uma reação automática a uma emoção negativa. Ou seja, a nossa distração geralmente é motivada pelo desejo de escapar de algum tipo de desconforto, incluindo tédio, medo e ansiedade. Quando assistimos a uma série em vez de terminarmos aquele relatório (que até já está atrasado) evitamos uma atividade que nos provoca tédio ou desconforto. O segredo para manter o foco em momentos como esses não é abstermo-nos de assistir à série, até porque rapidamente encontraremos outra distração — e sim mudar nossa perspetiva sobre a tarefa em si.

Ian Bogost é Professor de computação interativa no Instituto de Tecnologia da Geórgia e estuda diversão para viver. No último livro, Bogost faz várias afirmações ousadas que desafiam a forma como pensamos sobre diversão e brincadeira. Segundo Bogost brincar pode fazer parte de qualquer tarefa difícil.
“Diversão é o resultado de manipular deliberadamente uma situação familiar de uma nova maneira”.
Ian Bogost
Dado o que sabemos sobre nossa propensão para a distração quando estamos desconfortáveis, percecionar o trabalho difícil como diversão pode ser incrivelmente fortalecedor. Imagina o quão poderoso seria transformar o relatório complexo que tens em mãos em algo que parecesse uma brincadeira.
A questão é que, grande parte das vezes, consideramos que já estamos a ter diversão no nosso dia a dia. Afinal de contas, nos tempos que correm, há tanto com que nos ocuparmos. Estamos constantemente a fazer coisas… O que não quer dizer que estejamos a viver verdadeiramente com satisfação pessoal. Estamos, em grande parte do nosso tempo, ocupados e distraídos.
Frequentemente utilizamos a palavra diversão para descrever tudo aquilo que fazemos nos nossos tempos livres (mesmo que nem nos traga real satisfação e até seja uma perda de tempo).
Por exemplo, fazemos scrool nas redes sociais por “diversão” embora, tantas e tantas vezes isso não nos traga satisfação verdadeira…Apenas uma espécie de gratificação instantânea!

No próprio dicionário a definição de diversão não é muito clara e faz-nos sentir como se fosse algo superficial e associado à distração. No entanto, se pensarmos nas nossas próprias experiências pessoais, a diversão traz-nos muito provavelmente algumas das nossas melhores recordações.
Portanto, a diversão não é só para crianças e, definitivamente, não é superficial. Abrir espaço para a diversão também não significa tirar férias caras ou gastar muito dinheiro em coisas materiais.
É importante entendermos que, ao contrário do que refere o dicionário, a diversão é um sentimento e não uma atividade. Muitas vezes quando pergunto às pessoas o que significa para elas diversão, respondem-me com uma lista de atividades que gostam de fazer.
No entanto, todos já tivemos provavelmente a experiência de estar numa atividade que deveria ser divertida e que, afinal, nem está a ser ou aquele jantar que deveria ser ótimo e que, afinal, se tornou apenas numa qualquer obrigação para “cumprir calendário”. O contrário também pode acontecer. Atividades que tipicamente não seriam divertidas, mas que acabam por se tornar.
É precisamente esta última ideia que quero explorar ao longo deste artigo.
de que forma a diversão te pode ajudar a gerir a distração?
A resposta reside em focar na tarefa em si. Em vez de fugir da nossa dor ou usar recompensas como prémios para ajudar a estarmos motivados, que tal ativarmos uma competência essencial à diversão – a curiosidade?
Vivemos tempos em que as emoções negativas são percecionadas como algo a evitar. Vivemos tempos em que muitas vezes nos é vendida a ideia de que podemos e devemos camuflar as nossas emoções negativas com momentos que nos façam “esquecer” o que estamos a sentir e mudar o foco da atenção. Não poderia discordar mais!
Digo muitas vezes aos meus clientes que não há emoções boas ou más, há emoções positivas ou negativas. Todas elas fazem parte de um espectro que nos torna humanos e que podemos e devemos integrar, ampliando o nosso vocabulário de emoções. As emoções dão-nos constantes pistas sobre o mundo à nossa volta, mas sobretudo, sobre o que se passa dentro de nós.
Ora, a curiosidade tem um papel essencial neste processo. Quando foi a última vez que olhaste com curiosidade para o que se passa no teu corpo quando sentes tristeza ou raiva? Quando foi a última vez que reservaste um tempo para pensar sobre os motivos pelos quais te sentes de determinada forma? Aplicando diretamente à distração: Quando foi a última vez que olhaste com curiosidade para uma tarefa que te tende a gerar desconforto?
Optamos demasiadas vezes por “desligar” as nossas mentes com prazeres rápidos que nos exigem pouco ou nenhum envolvimento e compromisso. Assim, vamos treinando o nosso cérebro para escolher o caminho de menor esforço.
Operar sob restrições, diz Bogost, é a chave para a criatividade e a diversão.

Divertires-te enquanto cortas a relva pode parecer um exagero, mas a verdade é que isso pode, efetivamente, acontecer. Em tempos, um cliente contou-me como tinha conseguido tornar precisamente a tarefa de cortar a relva em algo divertido e que, inicialmente, considerava apenas uma perda de tempo. Começou por pesquisar pelo “melhor cortador de relva”, depois decidiu estudar sobre a influência das condições atmosféricas do momento em que corta a relva no respetivo crescimento e, por aí em diante. Assim, acabou por tornar a tarefa em algo desafiante, ao estimular a sua curiosidade.
Consideremos um barista obcecado por café que gasta uma quantidade enorme de tempo a refinar a bebida perfeita, o apaixonado por carros que trabalha incontáveis horas a ajustar ou a limpar o seu carro ou o artesão que meticulosamente produz colchas ou roupas de forma entusiasta. Claro que essas pessoas não acham essas atividades aborrecidas, para elas, são atividades fascinantes e cativantes.
A diversão em tudo se relaciona com o foco… A diversão é algo que pode acontecer no “aqui e no agora”, praticamente em qualquer lugar, a qualquer hora. Através da ciência, sabemos que a diversão é extremamente benéfica para o nosso bem-estar físico e psicológico, no entanto, a ausência de diversão nas nossas vidas, atualmente, é impressionante. Vivemos num mundo onde a autoexpressão é, cada vez mais, transformada em performance.
Quando nos sentimos divertidos isso é muito fácil de reconhecer. Ficamos radiantes, a nossa expressão e a nossa postura mudam. A verdadeira diversão produz uma sensação visceral de satisfação que se reflete em todo o nosso corpo.
A diversão é energizante e contagiosa. Quando as pessoas me falam sobre os seus momentos de diversão é como se os seus olhos brilhassem e os seus rostos se iluminassem. Essa energia é contagiosa. Há tanta coisa que nos drena a energia, mas a diversão preenche-nos e coloca-nos no momento presente. São tantas as vezes em que trabalhamos e nos esforçamos para nos mantermos no “aqui e no agora”… fazemos yoga, meditamos (e tudo isso é ótimo) mas o facto da diversão ser um estado de fluxo significa que quando nos estamos a divertir, simplesmente, estamos presentes...Não há outra forma de isso acontecer!
A diversão também nos une enquanto seres humanos. Vivemos num mundo polarizado e repleto de obrigações. Quando nos divertimos conectamo-nos uns aos outros de forma leve.
Finalmente, a diversão também nos torna mais saudáveis. Estarmos continuamente stressados provoca mudanças hormonais no nosso corpo que potenciam o risco de doenças. Quando nos divertimos estamos relaxados e mais conectados socialmente o que, por sua vez, liberta oxitocina e reduz os níveis de cortisol.
Tens tido momento de verdadeira diversão ou apenas de distração e de gratificação instantânea?
















